segunda-feira, 17 de junho de 2013

A greve e o grito

Edvard Munch - O grito (1893)

Não queria escrever aqui sobre a greve. Mas tenho de fazê-lo. Fiz greve? Fiz. Gosto de fazer greve? Não. Por que razão fiz uma coisa que não gosto de fazer? Porque a realidade criada pelos actores governativos a isso me obrigou. Quando um grupo social faz greve reconhece a sua fraqueza. Esse reconhecimento é um momento fundamental para se tornar também actor e entrar no jogo. Os fortes não fazem greves, nem gritam nas ruas. Falam baixo para os ouvidos certos, os quais, por inaudíveis que sejam as palavras dos fortes, as ouvem sempre muito bem. 

Quando cerca de 90% de professores fazem greve, este acto conjunto é um grito. Por que motivo gritam os professores? Se os professores fossem banqueiros não gritavam. Mas como são professores, por explícitas que sejam as suas palavras, os ouvidos tão atentos aos fortes têm uma tendência congénita para a surdez quando se trata de outros sectores. Eu gostava muito de não ter feito greve. Palavra de honra. Gostava muito mais de ter ido jantar com alguma potestade e, em clima ameno e cúmplice, ter-lhe sussurrado meias palavras ao ouvido, enquanto bebia um bom tinto, sabendo que ela se curvava perante a minha sugestão sobre o modo como tratar os professors. Era tudo mais fácil, mais civilizado, e um bom tinto sempre é um bom tinto. Não havendo potestade disponível para jantar comigo, restou-me o grito, a greve. A vida é o que é.