terça-feira, 25 de junho de 2013

Cansado de realidade

Liubov Popova - Komposition (1918)

Sim, o calor é mau, é mesmo uma coisa péssima, mas a realidade ainda consegue ser pior que o calor. A realidade é uma coisa abominável, com péssimo feitio, sempre a resmungar, sempre descontente. Odeio a realidade. Nunca se satisfaz com a atenção que lhe damos por causa da nossa vidinha, de termos de comer, de andar vestidos, de ir aqui e ali, de comprar um livro ou de levar o carro à oficina. Quer mais, despudoradamente mais atenção. Entra-nos pela casa dentro, instiga-nos a olhar para ela, ronrona que nem gata no cio, cabriola diante dos nossos olhos. Uma serigaita. Mal desviamos os olhos, logo a realidade chama por nós, cai-nos em cima, ameaça esmagar-nos. 

Nestes últimos tempos, tenho tido uma dose excessiva de realidade, uma dose de tal maneira grande que estou a ficar enfartado. Tudo o que é interessante cai fora da realidade. Ao ver algo fora da realidade, o meu coração, como se estivesse vivo, começa logo a inclinar-se para aí. A cabra da realidade, porém, implacável e fria, rasga-me a ficção, destrói-me o enredo e, já meia despida, exige que olhe para ela. Ainda tento falar de impotência, mas ela vara-me com os olhos... Ao menos a realidade podia ir de férias para outro lado, para um exoplaneta habitável nos confins da galáxia. Um homem não foi feito para tanta realidade. Estou cansado.