sábado, 22 de junho de 2013

Meditações dialécticas (12) A luta contra a fatalidade

Jan Toorop - Fatality (1893)

Há um fundo obscuro na liberdade que a razão humana, limitada e finita, não consegue apreender. Esse fundo obscuro diz respeito às consequências da liberdade numa comunidade de seres racionais e, ao mesmo tempo, animais. As decisões livres de uma parte desses animais racionais tendem a surgir aos olhos e à experiência dos outros como uma fatalidade, como a mais pura ausência de liberdade. As consequências do livre-arbítrio de alguns são, tendencialmente, a aniquilação do livre-arbítrio e da liberdade dos outros, a transformação da vida em pura fatalidade e a representação do futuro como um destino determinado e inexorável. 

Se tentarmos compreender o que se passa no mundo, da Europa do sul ao Brasil, descortinamos sempre exemplos deste enigma da liberdade. Alguns tentam, insidiosamente, transformar a vida da maioria das pessoas numa fatalidade a que ficarão condenadas sem remissão. Os conflitos sociais que estamos a assistir parecem ter como razão de ser questões de natureza económica e social. Mas isso é apenas a aparência do que está em questão. As pessoas lutam contra o destino, a fatalidade, a eliminação da sua capacidade de poder fazer escolhas livres. Em tudo isto revela-se uma das fragilidade essenciais das sociedades liberais, a sua tendência, em nome da liberdade, de transformar a vida de um número significativo de seres racionais em pura fatalidade. O que está em jogo, nestes tempos conturbados, é a luta contra a fatalidade.