quarta-feira, 26 de junho de 2013

Meditações dialécticas (13) A crise da representação política

August Macke - Despedida (1914)

Com efeito, onde o si-mesmo está apenas representado e apresentado idealmente ele não está efectivamente; onde ele está por procuração ele não está. (Hegel, Fenomenologia do Espírito)

Esta estranha e quase incompreensível frase de Hegel pode ser transferida do seu contexto filosófico para o grande drama da história contemporânea do mundo. Num post anterior, observou-se que o conjunto de protestos, sublevações, manifestações que parecem eclodir um pouco por todo o lado são sinais de uma luta dos seres humanos contra a fatalidade, uma fatalidade que é fruto da liberdade dos outros. Uma segunda característica que marca a experiência da humanidade nos dias de hoje está ligada à representação. As democracias modernas, a forma de organização política que o Ocidente inventou, são denominadas democracias representativas. Nelas, os cargos políticos estão formalmente abertos a todos. O sistema político, todavia, representa ao mesmo tempo uma forma de inclusão e de exclusão. Na forma e em abstracto, todos podem participar na decisão política, elegendo os seus representantes ou candidatando-se a representante. A contrapartida deste processo de inclusão é a exclusão efectiva dos não eleitos, que são mais de 99% da população de uma comunidade política.

O que Hegel chama a atenção, num outro contexto, é que quem está representado, quem passou procuração a terceiros, quem está presente apenas na forma de uma idealidade, não está, de facto, presente. A representação política significa, na verdade, uma forma dos cidadãos individuais se ausentarem das decisões da comunidade. A crise das democracias representativas que se vive na Europa, as explosões sociais como as do Brasil, os níveis de abstenção elevadíssimos que se encontram  em muitas eleições (a começar pela do Presidente dos EUA) são tudo sinais de que os indivíduos, na sua singularidade, sentem-se ausentes do espaço político onde são tomadas as decisões que os afectam. A novidade, se é que há uma novidade, é que a crença que liga os eleitos e os indivíduos que os elegem se esboroa muito rapidamente, deixando os sujeitos eleitores numa situação de orfandade. O que se está a passar não é apenas um conflito contra os maus representantes políticos, mas um conflito que põe a nu os limites da representação enquanto ideia de organização da comunidade política, um conflito em que, ainda de forma inconsciente e confusa, os indivíduos querem recuperar para si o poder de iniciativa  de que são privados pela inibição que a representação política impõe. As pessoas não se sentem representadas e sentem mesmo que os representantes lhes roubam a capacidade de tomar parte, de participar. Este, a debilidade da representação, é outro dos problemas dos dias de hoje e está intimamente ligado ao da fatalidade referido mais acima. Estará a representação morta, assistimos à despedida dela?