quinta-feira, 13 de junho de 2013

O tempo da acrobacia

George Grosz - Acrobatas (1916)

Não é apenas a greve dos professores que gera tanta acrobacia. Trata-se também, e fundamentalmente, de toda a grande manobra, mascarada sob um resgate financeiro, de transferência de muitos milhares de milhões de euros dos bolsos das classes médias e populares para as contas bancárias de algumas famílias, umas mais conhecidas outras mais discretas. A dívida soberana não é a razão dessa transferência. É a ocasião criada - meticulosamente criada - para que essa transferência se dê. Talvez todas as épocas da vida dos homens se assemelhem a esta. Talvez a nossa espécie seja mesmo assim. A verdade, porém, é que vivo nesta época e não noutra. E aquilo que eu vejo nestes dias indigna-me. 

O que me indigna, porém, não é a rapacidade dos poderosos (está-lhe na massa do sangue), mas as acrobacias daqueles que se alugam para, de forma mais ou menos subreptícia, defender essa rapacidade, seja na vida política, seja na comunicação social. Se há alguma coisa que mostra o lado negro da espécie humana são as acrobacias dos jograis de serviço, dessa gente que mente deliberadamente para servir os seus senhores, que não hesita nunca em estar do lado dos fortes contra os fracos. Talvez este tipo de gente sempre tenha existido. Hoje em dia, contudo, não há hora em que os pusilânimes defensores dos fortes não façam acrobacias, seja na política ou na opinião pública, para justificar e legitimar o roubo e a humilhação das classes médias e populares - é disso que se trata - que, com a ajuda da lei, estão a ocorrer. Este é o tempo da acrobacia.