sexta-feira, 5 de julho de 2013

Como foi possível?


Escrevo depois de ouvir a patética declaração do primeiro-ministro. Repeti a pergunta que faço muitas vezes: como foi possível chegar a um ponto em que entregámos a governação do país a gente tão imatura e irresponsável? Não sou contra os partidos políticos. Sem eles não há democracia, pelo menos nos moldes a que estamos habituados. Mas não deixa de ser extraordinário que os partidos políticos tenham uma capacidade inesgotável de promover gente medíocre. Esta mediocridade infantil não permitiu ao governo, com uma ou outra excepção, perceber o país em que se vive. 

Todo este imbróglio não se deve ao mau génio do Dr. Portas nem à maldade do Prof. Gaspar. Isto nasce da tontice, de todo o governo e da União Europeia, de querer, de um dia para o outro, transformar um país envelhecido e muito fragilizado socialmente, com diminutas competências, com pouca capacidade de iniciativa, com uma cultura de compadrio e de nepotismo, com uma dose de irresponsabilidade social e individual grande, num país liberal, onde seres racionais e autónomos gerem a sua vida sem dependências do Estado. Este desejo do governo de Passos Coelho é mais infantil do que os meus delírios de teenager revolucionário, nos anos setenta do século passado. 

Uma sociedade liberal deve ser um ideal regulador da acção política e da conduta moral. O que significa,  na verdade, uma sociedade liberal? Significa que os indivíduos que a compõem têm a capacidade de gerir autonomamente o seu destino, que são dotados de iniciativa suficiente para poderem enfrentar os infortúnios da existência, que as suas capacidades de decisão racional estão educadas. Isto, porém, é um ideal. Portugal não é assim, por isso os indivíduos precisam de mecanismos de protecção que só o Estado pode actualmente fornecer. 

Quando estes mecanismos são destruídos politicamente por um suposto programa liberal, não é o liberalismo que nasce, não é o espírito de iniciativa que cresce, nem são as decisões racionais que triunfam. O que triunfa e cresce é o medo, o desespero, a vergonha, mas também a corrosão do carácter, a batota, o salve-se quem puder. E são estes factores que estão a gerar este conjunto de furacões políticos que se abatem, inexoravelmente, sobre agentes governativos impreparados, cheios de preconceitos ideológicos e absolutamente impotentes perante uma realidade que, na verdade, desconhecem. Para que o mal ainda seja pior, Portugal tem a pouca sorte de ter em Belém Cavaco Silva, o maior responsável político pelo estado a que se chegou. 


Como foi possível?