terça-feira, 16 de julho de 2013

Compromisso histórico

Rufino Tamayo - Llamada de la revolución (1935)

Em todo este drama que se abateu sobre Portugal, aquilo que não deixa de me surpreender é a baixa atracção que os partidos de protesto - PCP e BE - continuam a ter. Seria expectável que, com a aplicação do programa da troika, as sondagens mostrassem uma afirmação clara destes partidos. A verdade, porém, é que isso está longe de acontecer. A sondagem publicada há dois dias no Correio da Manhã mostra até o contrário, a soma de ambos, no último mês e já depois das peripécias governamentais que todos conhecemos, recua cerca de três pontos percentuais. Somam agora cerca de 17% contra os cerca de 71% do arco da troika.

Mostrarão estes resultados que existe um largo consenso nacional sobre o caminho a seguir? Em aparência sim. Na verdade, porém, a realidade é outra. PCP e BE são vistos apenas como partidos de protesto, mas que não têm qualquer solução viável para o problema onde nos encontramos metidos. Independentemente daquilo que pensam militantes e dirigentes desses partidos, eles não fazem parte, segundo os portugueses, da solução e como tal as sondagens que possam mostrar o seu crescimento nunca disparam verdadeiramente.

É pena que PCP e BE sejam vistos apenas como partidos de protesto, é pena que eles, de forma deliberada, passem também essa imagem para a opinião pública. Em primeiro lugar, ambos têm um ethos muito diferente dos partidos de governo, um ethos marcado pelo respeito pelo bem público, marcado por colocar o bem da comunidade acima do interesse dos agentes políticos. Em segundo lugar, ambos defendem um conjunto de valores políticos, nomeadamente ao nível das funções sociais do Estado, que mereceriam ser defendidos não apenas pelo protesto mas pelo compromisso político. 

Se ambos os partidos se dispusessem a um compromisso histórico com os socialistas, um compromisso que se situasse dentro da realidade (e a realidade é que estamos sob assistência financeira) em que vivemos e que visasse a defesa do essencial, talvez os portugueses olhassem para eles com mais atenção e percebessem que alguma coisa de novo poderia vir da esquerda. Não vale a pena esperar o chamamento da revolução social, os portugueses são surdos para ele. Mas certamente teriam ouvidos muito atentos para uma ética do respeito pelo bem comum e para o compromisso que os ajudasse a sair do lodaçal onde o arco da governação os meteu.