quarta-feira, 17 de julho de 2013

Evitar a anagnórise

Ramón Pérez Carrió - Anagnórisis (1994)


Um dos principais problemas do drama português é a inexistência de momentos de anagnórise. Nunca descobrimos os dados essenciais da nossa realidade nem da realidade que nos envolve. Quando o filósofo José Gil escreveu que o problema português é um problema de não inscrição - de não tornar real aquilo que desejamos - ficou na superfície. A questão é mais funda e liga-se com a ausência de desocultação, de revelação. Não é apenas a classe política que, deliberada e sistematicamente, nos oculta a realidade em que vivemos. Somos nós, portugueses, que evitamos a revelação da verdade. A verdade proveniente do reconhecimento, como ensina a Poética de Aristóteles, obriga as personagens dramáticas a formar uma ideia mais exacta de si mesmas, daquilo que as rodeia e da sua própria conduta. A democracia portuguesa, fundamentalmente após a adesão à União Europeia, então CEE, foi um exercício terrível de cumplicidades entre eleitos e eleitores. Todos conspiraram, e conspiram ainda hoje, para evitar a hora terrível da anagnórise. Não é a não inscrição, a falta de produtividade, a ausência de competitividade, etc. que são problemáticas. Terrível é que construímos uma sociedade que lida mal, muito mal, com a revelação da verdade, que evita, a todo o custo, o momento de anagnórise, fingindo que nada se passa. O preço é a inultrapassável embrulhada onde nos encontramos.