quinta-feira, 25 de julho de 2013

Tempo suspenso


Para retornar à actividade - como está um tempo de preguiça - aqui fica a minha crónica da semana passada no Jornal Torrejano.

Talvez seja dos dias de calor ou da instabilidade do clima, talvez seja apenas mau olhado, mas Portugal vive um tempo suspenso. Disfarçamos, olhamos para o lado, assobiamos para o ar. Nada se passa. O Dr. Vítor Gaspar decidiu ir-se embora, dizendo, depois de arruinar centenas de milhares de pessoas, que as suas sábias políticas estavam erradas. O Dr. Portas, azougado e feérico, achou que o tempo se apressava e bateu com a porta, para que ele se tornasse mais vagaroso. O Sr. Primeiro-Ministro já não sabe para onde se voltar, nem sabe se quer que o tempo avance rapidamente ou pare. O próprio Presidente da República decidiu convocar os partidos para suspenderem o tempo. Mesmo na esquerda, todas aquelas propostas de negociações são formas de suspender o tempo.

O que está em jogo é uma coisa muito simples, as eleições alemãs. Está toda a gente à espera de um milagre, que o tempo em Portugal se suspenda, o que significa que não se tomam decisões aborrecidas, enquanto, sorrateiro e desavisado, o tempo, na Alemanha, se precipita nos braços das eleições. Desse amplexo, esperam, suspensos, os portugueses que, rejubilante, a senhora Merkel fique com melhor feitio. O que temos assistido, nestes últimos tempos, só tem uma causa: esperar que, liberta do juízo dos cidadãos alemães, gente indisposta com o pessoal do Sul, a Senhora se apiede de nós e abra uma fresta para renegociar a dívida e pôr em acção alguns mecanismos de coesão europeia, para evitar o colapso puro e simples dos países periféricos.

Não vejo outra alternativa à imensa desgraça que se avizinha. Ela contém, todavia, duas manchas que há que ter em conta. A primeira nódoa diz respeito à relação entre a vitória eleitoral e a boa disposição de Angela Merkel. Nada nos garante que, após eleições, ela se torne mais compreensível com o desespero do Sul. A segunda diz respeito aos responsáveis indígenas. Anda toda a gente deserta para voltar à sua vidinha, aos negócios do costume. É este retorno à vidinha que é o principal problema, pois foi essa vidinha que nos trouxe aqui. Por vidinha entendo não o Estado Social, mas as vaidades de primeiros-ministros e presidentes de câmara, as auto-estradas sem carros, os estádios de futebol vazios, o buraco sem fundo da Madeira, os negócios do BPN, a primazia dos bancos, as Parcerias Público-Privadas e os milhentos negócios que parasitaram o Estado e as autarquias, e mostraram a natureza das nossas elites políticas. Podem suspender o tempo, mas o melhor seria suspender o carácter, ou a falta dele. Foi isso que nos trouxe a este lamaçal e a esta ignomínia.