sexta-feira, 26 de julho de 2013

Uma fábula persistente

A minha crónica desta semana no Jornal Torrejano.

Uma das fábulas mais persistentes da política portuguesa é o carácter arbitral do Presidente da República. Dizer que o PR é um árbitro significa afirmar que ele é independente dos que jogam o jogo político. Ora nem a Constituição define o PR como um árbitro ou um juiz imparcial, nem a prática dos vários presidentes eleitos tem sido independente do jogo político e do conflito partidário. Talvez o caso mais interessante seja o do general Ramalho Eanes que, não pertencendo a qualquer partido político, acabou por patrocinar o nascimento, enquanto estava na Presidência, do seu próprio partido político, o PRD.

Cavaco Silva nunca deixou de dar provas de uma visão política partidária. O seu desempenho na crise aberta pela maioria governamental – a carta de saída de Vítor Gaspar e o reconhecimento da falência da política seguida, bem como a irrevogável demissão de Paulo Portas – mostraram à saciedade que o actual PR não está acima do conflito partidário, pelo contrário. Perante o descalabro das políticas seguidas e os estados de alma dos governantes, Cavaco Silva tudo fez para salvar a maioria e, ao mesmo tempo, para colocar o PS e o seu líder em extrema dificuldade.

A sua proposta de um acordo de salvação nacional foi um belo presente para a maioria e uma maçã envenenada para Seguro. Portugal, com pouca cultura democrática, não compreende os benefícios do pluralismo de ideias e do conflito de soluções rivais, sendo, por isso, muito vulnerável a pretensos e ilusórios consensos. Uma espécie de saudosismo da União Nacional, do tempo do dr. Salazar. Os socialistas ficaram colocados perante um dilema: ou faziam um acordo com os partidos da maioria, o que tornava o PS responsável pelas políticas do governo, ou rejeitavam, como o fizeram, e seriam – como serão – acusados de falta de responsabilidade e de pouco espírito patriótico. Fosse qual fosse a posição de Seguro, os socialistas ficariam mal na fotografia e a maioria seria tornada inocente e pura.


Foi uma excelente jogada partidária de Cavaco Silva. Mas foi uma boa jogada para os portugueses? Para alguns, foi. Mas para aqueles que sofrem as consequências das más decisões do actual governo – quase sempre apoiadas pelo Presidente – foi uma péssima solução. Dizer que a proposta de Cavaco Silva não serviu para nada não é verdade. Serviu para defender os partidos que o apoiaram, serviu para mostrar que não é independente, serviu, por fim, para reforçar a força daqueles que estão apostados em fazer de Portugal um novo Bangladesh.