segunda-feira, 30 de setembro de 2013

A minha queda de Contantinopla

The Siege of Constantinople (1499)

Ontem, a Ivone, parafraseando Álvaro Mutis, escrevia que o último acontecimento político a comovê-la tinha sido a queda de Constantinopla, em 1453. Não é que a queda de Constantinopla não me comova ainda hoje. Comove e acho que foi uma safadeza do destino o bizantino fim do Império Romano do Oriente. O texto da Ivone, porém, está a ser citado não por causa do destino do cristianismo ortodoxo, mas porque me confrontou, sem que ela o suspeitasse, com o interesse que eu dedico aos acontecimentos políticos, os quais, na verdade, não me comovem nem me movem. Mas interessam-me. É este interesse que é para mim motivo de espanto. Umas páginas de Maquiavel e a essência da coisa fica detalhadamente explicada. Páginas essas que os políticos até hoje se encarregaram de nunca desmentir. Não há novidade política que mova a curiosidade nem acontecimento que introduza uma revolução na teoria. Tudo é muito repetitivo e, na verdade, cansativo.

O que me interessa na política é aquilo que me aborrece nela. Não consigo imaginar-me exultante pelo partido do senhor Seguro ter ganho 150 câmaras, ou pelo desconforto do senhor Passos Coelho ao ver a deserção dos votantes, ou pela reconquista das câmaras de Évora e de Beja pela CDU, ou pela miserável votação nacional do BE ou do CDS. Daqui a quatro anos tudo será ao contrário, mais coisa menos coisa. A questão é mesmo outra. Eu estou descansado em casa. Oiço música, leio uns livros, escrevo no blogue. Vou à escola, dou aulas, tento fingir que a moral kantiana é a coisa que mais interessa a crianças de 15 anos e que a vexata quaestio do conhecimento começar pelos sentidos ou pela razão deixa - imagine-se - os adolescentes de 16 anos completamente siderados. Depois,  reúno-me com os meus colegas para, debalde, salvar a educação, e volto a casa. Enfim, trato da vidinha como qualquer outra pessoa. O que me aborrece na política é que ela vem ter comigo e tira-me do sossego privado, faz-me patifarias, abate-se sobre mim como um acidente de automóvel ou um desastre natural. Interfere na minha vidinha, sem me pedir autorização, e mostra-me aquilo que eu sou. E aquilo que eu sou, segundo a política que cai sobre mim, é nada. Talvez o que me interessa na política seja a minha própria impotência perante os acontecimentos que ela move, e a forma como ela me remove de onde estou. Há quem pense que dela, da política, pode vir a salvação. Não pode. Ou, pelo menos, eu não acredito. O meu interesse pela política é a de um olhar fascinado pela própria perdição. Na verdade, é como se eu visse retratada na minha queda a queda de Constantinopla.