quinta-feira, 19 de setembro de 2013

A transfiguração da pátria (8) O caçador cansado

Oscar Dominguez - El cazador (1933)

O pobre caçador rosna sentado no chão,
enquanto a chuva tirita nas vidraças
e o fogo alumia a lareira de crepúsculos,
promessas vazias vindas de longe,
o desejo despedaçado entreaberto no coração.

Noite, o sopro das tuas mãos sibila em mim.
Em cada passo farejo a presa e oiço,
silencioso e mudo, o troar dos cascos:
Vestida de branco, vem a estrela da morte,
um cortejo de crisântemos e anémonas.

O pássaro de cristal voa sob a água da noite
e o caçador prepara a espingarda.
Cidades suspensas, casas vazias, ruas em sangue.
Deslizo pelo sino da meia-noite
e espero exausto a melancolia da manhã.