sábado, 28 de setembro de 2013

Fim da anestesia

Gerardo Rueda - Espera III (1975)

Dias como o de hoje dão-me sono. Esta espera, alimentada ainda por um calor vagamente outonal, inclina-me a vontade para o chão e a boca para o bocejo. Chegamos a um tempo em que desapareceu qualquer ligação entre a espera e a esperança. Não se imagine que a espera de que falo seja a espera pelos resultados eleitorais de amanhã. Não é. Para as eleições de amanhã estou no meu dia de reflexão. 

[Interlúdio] Tenho meditado muito sobre as eleições. Descobri que a lei está mal feita. Está invertida a relação entre o período de campanha e dia de reflexão. Dava-se um dia para os candidatos exporem os seus pontos de vista, fazerem arruadas, comícios, cortejos, colarem cartazes, distribuírem panfletos, programas, isqueiros e caixas de fósforos. Seriam permitidas até procissões, mesmo, ou fundamentalmente, as de carácter dionisíaco. À meia-noite do dia único - por ser o único dia - terminava a campanha eleitoral. A massa dos eleitores entrava então em, por exemplo, dez dias de meditação transcendental, reflexão metafísica e análise crítica das propostas. Ao fim de dez dias, votava-se. [Fim do interlúdio]

Mas, como dizia, a espera que desespera não é a que visa o dia de amanhã. É, como muito bem salientou José Pacheco Pereira, no Público de hoje, a espera por depois de amanhã, depois dos votos contados, dos eleitos sentados nos lugares, e dos cartazes descolados. As aleivosias que se preparam, sorrateiramente, entre palavras mansas e gestos dúbios. A anestesia a que fomos sujeitos nos últimos tempos perde o efeito depois de domingo à noite. Esta é a espera pelo que está para vir, é a espera sem esperança. Os sacerdotes de depois da amanhã são maus e os profetas não auguram nada de bom. E o que está para vir, quando a anestesia passar, é bem pior do que aquilo que já veio.