sexta-feira, 13 de setembro de 2013

O cheque-ensino


Como se destrói o ensino público? Facilmente. Basta o cheque-ensino aprovado pelo governo. Aparentemente ele serve para aumentar a liberdade de escolha das famílias, ao permitir que elas optem entre escolas públicas e privadas. Na prática, visa financiar os generosos lucros das empresas privadas de educação e acabar com grande parte das escolas públicas. Mas, se as escolas públicas forem boas, por que razão hão-de as famílias escolher colégios privados?

Quem conhece a educação sabe perfeitamente que a percepção das pessoas é muitas vezes distorcida. Quem não conhece casos de escolas com resultados idênticos ou melhores que outras, com menos problemas disciplinares e menos comportamentos desviantes, e que são percepcionadas de uma forma mais negativa? A formação da imagem das instituições é um processo social complexo e que muitas vezes, por motivos de moda, de propaganda, de campanhas negativas, etc., é completamente distorcido.

Ora nós temos assistido, ao longo da última década, a uma campanha sistemática que tende a mostrar que as escolas privadas são melhores que as públicas, devido aos resultados dos exames. Essas campanhas, muito bem orquestradas, escondem sempre duas coisas essenciais: a origem social e cultural dos alunos e aquilo que se passa, depois, nas universidades. Alguém, há tempos, escrevia que os super-alunos dos super-colégios quando chegam ao ensino superior perdem os super-poderes. Isto porque um estudo da Universidade do Porto mostrou que, apesar de terem notas inferiores nos exames do secundário, os alunos do ensino público vão melhor preparados e obtêm, no ensino superior, melhores resultados. Mas qual é a percepção que as pessoas têm? O privado é melhor.

Imaginemos o concelho de Torres Novas. Se o cheque ensino for para a frente e cobrir para substancial das propinas, facilmente se compreende que investir em educação, pagando miseravelmente a professores, é um excelente negócio. Em breve teremos dois ou três colégios privados que disputarão entre si os alunos existentes, a começar pelos melhores. Por meritório que seja o trabalho das escolas públicas concelhias – e, na verdade, é-o – elas não terão qualquer capacidade para reter os alunos, mesmo que o ensino oferecido pelos novos colégios seja pior e menos capaz de preparar os alunos para o ensino superior. A ilusão do estatuto – que bom, tenho o filho no colégio privado – e o trabalho de propaganda farão o serviço. Em meia dúzia de anos, Nuno Crato conseguirá destruir aquilo que foi o trabalho de muitas e muitas gerações de portugueses de todas as classes sociais.