sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Extrema-direita


Talvez o fenómeno mais importante na política europeia contemporânea seja o crescimento eleitoral da extrema-direita. Parece ser a reacção dos eleitorados à morte do Estado Social, à destruição do emprego devido à globalização e à revolução tecnológica, ao peso, em certos países, de uma imigração com valores culturais e existenciais antagónicos aos autóctones, ao desprezo pelas elites governativas comprometidas com a globalização e, por fim, ao descrédito das esquerdas não-governamentais. O caso francês parece ser exemplar na conjugação destes factores.

E em Portugal, haverá condições para a emergência de uma direita radical? Encontramos factores que são propícios ao nascimento da extrema-direita. A destruição do Estado social, o desemprego, o desprezo pelos partidos do arco governativo e um acentuado ressentimento perante as elites financeiras e judiciais: tudo isto está a criar um território pouco propício aos valores democráticos. Se a imigração não gera, entre nós, situações de conflito social, já a emigração pode ser um factor favorável à propagação de sonhos autoritários.

Neste momento, há dois factores que impedem, no nosso país, a emergência de um forte partido da extrema-direita. Em primeiro lugar, a capacidade que o Partido Comunista e o Bloco de Esquerda têm para concentrar, dentro do actual regime, o descontentamento mais radicalizado. Em alguns países, o crescimento da extrema-direita está directamente ligado à implosão dos partidos de esquerda. Em segundo lugar, uma certa passividade do povo português – aquilo a que se costuma chamar brandos costumes – leva-o a olhar com muita desconfiança as manifestações mais ”viris” ao gosto dos extremistas de direita.

No entanto, há uma possibilidade não desprezível da emergência de uma direita radical, de tonalidade nacionalista e iliberal. A contínua degradação da situação social e política e o aumento do ressentimento social podem chegar a patamares que produzam as condições para que a direita radical surja e se implante em Portugal. Mas, para tal, será necessária uma outra condição - a emergência de um chefe que, apresentando-se como nacionalista e não liberal, combine carisma e uma aparência de serenidade e tranquilidade, para além de competência política. Uma direita radical em Portugal, que possa ameaçar os fundamentos democráticos, nunca poderá ter o ar desordeiro e revolucionário que, por norma, a extrema-direita gosta de dar.

A direita radical ainda não existe por cá, mas o terreno parece estar cada vez mais disponível.