quarta-feira, 13 de novembro de 2013

A alegre ascensão

Wassily Kandinsky - Alegre ascensão (1923)

As revoluções francesa e industrial representaram o fim de um mundo onde a estratificação social parecia petrificada. O sentido de uma vida estava praticamente decidido no momento da concepção. Tudo dependia da casta a que, por nascimento, se pertencia. Se o mérito tinha algum valor, só o tinha dentro duma dada casta e segundo limites bem precisos. O novo mundo trazido pelas duas revoluções libertou a humanidade da fatalidade do nascimento e abriu as portas ao que agora se chama mobilidade social. À humanidade, fundamentalmente àquela que habita nos andares mais baixos do edifício social - isto é, a generalidade dos seres humanos -, mas também à outra, deu-se um sentido preciso para a vida: ascender socialmente. A verdade de cada um já não reside na origem, mas no valor de mercado. O mercado é o lugar onde, na sociedade moderna, se revela não apenas a verdade do valor das mercadorias. É o lugar onde se revela o valor e a verdade de cada ser humano. Ascender socialmente significa então um reconhecimento do mercado. Sejam quais forem as ilusões que tenhamos sobre nós, sejam quais forem os bens sentimentos com que contemplemos a nossa vida e a dos outros, a única coisa que é relevante, na sociedade moderna, é a posição social, o valor de mercado de cada um. Foi a isto - a essa busca contínua de uma alegre ascensão social, e nunca se está suficientemente alto - que o Ocidente reduziu o sentido da vida do Homem. Talvez seja altura de meditarmos em dois velhos mitos, o de Ícaro e o da Torre de Babel.