segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Escrever e prescrever

Ronald B. Kitaj - Passion (1940-45) Writing

Em toda a escrita esconde-se uma estranha, embora banal, paixão. Em todo o escrever oculta-se uma vontade de prescrever. Não me refiro sequer à escrita jurídica que estabelece a lei ou aos códigos onde a lei religiosa emerge para ordenar um caminho de salvação aos homens. Refiro-me às realizações artísticas da própria escrita. Poesia, romance, drama são, em última análise, formas de prescrição com que os leitores se confrontam. Isto não significa que uma obra literária se resuma ou sequer contenha um imperativo ou um qualquer mandamento que se queira impor ao leitor. A questão reside na escrita, no seu carácter opaco, no desafio que ela coloca ao leitor. Uma obra de arte literária não pede para ser lida, mas exige que o leitor, ao lê-la, construa ou reconstrua o mundo que ela traz consigo. O imperativo de toda a escrita é que se penetre nela, até que ela deixe cair a opacidade e se torne transparente, deixando o mundo que, ao mesmo tempo cria e esconde.