sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Futebol e futebol


Hoje não escrevo sobre a crise. Acabei de ver o jogo de Portugal na Suécia e apetece-me falar de futebol. Não da excelência de Cristiano Ronaldo ou do destino português de deixar as coisas para última hora, que é como quem diz para o play-off, mas do que há de contraditório no fenómeno futebolístico. O futebol não é apenas um jogo que move milhões e arrasta multidões pelo mundo fora. Ele tem, talvez como nenhum outro fenómeno, a capacidade de simbolizar o mundo em que vivemos.

Se olharmos para o que se passa nos grandes clubes, o futebol tornou-se uma imagem perfeita da globalização, da mobilidade de pessoas e de capitais. O dinheiro move-se e compra clubes e jogadores. Clubes ingleses são comprados por russos, árabes, sabe-se lá por mais quem. Ao transformarem-se em sociedades anónimas desportivas, os grandes clubes transitaram de uma associação local para uma sociedade do mercado global.

Apesar das competições mais importantes para os clubes serem ainda nacionais e continentais, o futebol de clubes é o espelho da perda de referências nacionais. As equipas dos grandes clubes – e até dos pequenos – são constituídas por jogadores das mais diversas proveniências, dissipando-se, nos balneários, a referência do clube à sua pátria de origem. Mesmo a relação entre adeptos e clubes – grandes clubes, claro – está a perder a tonalidade paroquial. Real Madrid, Barcelona ou Manchester United têm adeptos por todo o mundo. São clubes verdadeiramente globais. E todos os grandes clubes gostariam de se tornar globais.

Curiosamente, o mesmo futebol, talvez com os Jogos Olímpicos, tornou-se no derradeiro lugar onde o patriotismo e o apelo da nação resistem à usura dos mercados globais. Ao nível das selecções, o que está em jogo é o triunfo de uma nacionalidade, de uma pátria, sobre todas as outras. Num mundo orientado para os mercados, as grandes empresas, como o dinheiro, não têm pátria. O globo terrestre é o território onde operam. É a ideologia de um para-além das pátrias que o liberalismo prega por todo o lado. Ora, o futebol parece resistir a esta rasura da dimensão nacional ao afirmar, através das selecções, o fervor patriótico das comunidades.

Não é claro, todavia, se o futebol funciona como escape onde é permitido a manifestação do amor patriótico ou se é um elemento a que as pessoas recorrem como forma de resistência afectiva à pressão dissolvente de um mercado global. Este enigma torna o futebol um elemento central para nos interrogarmos sobre os caminhos que a política trilha nos dias de hoje, pois há futebol e futebol.