sábado, 2 de novembro de 2013

O lugar do mal absoluto

Edvard Munch - Ansiedade

Por causa do meu post de ontem e de mais isto, retorno a uma velha ideia do filósofo francês Paul Ricoeur. O poder é o lugar do mal e o poder absoluto é o lugar do mal absoluto. Todos percebemos por que razão o poder é o lugar do mal. O poder existe porque nós praticamos o mal e ele, poder, pune o mal com o mal, a violência com a violência. O poder absoluto, porém, não tem qualquer limitação e, por isso, a prática do mal extravasa, em grande medida, a punição justa do mal cometido. O poder absoluto usa arbitrariamente e segundo os interesses dos seus detentores a capacidade de fazer o mal, de punir não apenas culpados mas também inocentes. Melhor, quando o poder é absoluto, ninguém é inocente. Todos são culpados e todos são suspeitos e, independentemente dos indícios, são puníveis. 

A democracia e os regimes constitucionais tiveram o papel de conter o poder, de o limitar à prática do mal apenas necessário. O que acontece, com a entrada em cena das novas tecnologias de informação e comunicação, é que a democracia deixou de ser eficaz para controlar quem detém o poder, mesmo que seja transitoriamente. Todos nos tornámos transparentes e a separação entre esfera privada e esfera pública está moribunda. Estamos a assistir à construção de novas formas de poder absoluto, formas essas que, não anulando o ritual formal das democracias, tornam a consciência dos cidadãos transparentes ao poder que as lê, restaurando, desse modo, o poder na sua forma absoluta. A política está a deixar de ser o lugar do mal para se tornar - ou voltar a ser - o lugar do mal absoluto.