segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Revoltas conservadoras

Käthe Kollwitz - Aufruhr [Revolta] (1989) 

A ideia de revolução, introduzida pela Revolução Francesa e desenvolvida depois pelos marxismos e a revolução soviética, contaminou a nossa percepção das revoltas populares. A Revolução Francesa introduziu a ideia de mudança progressista de regime político, a substituição de uma mundo social e duma forma de distribuição dos actores por outro mundo e uma nova forma de distribuição dos papéis sociais. O marxismo, por seu turno, teorizou até ao paroxismo o papel da revolução assente num levantamento popular como forma de criar esse novo mundo. 

Tudo isto, porém, é algo que escapa às revoltas populares. Genericamente, elas visam não um novo mundo e novas distribuições de papéis sociais mas o retorno a um tempo onde foi possível viver, onde a injustiça não tinha incendiado o coração dos homens. Durante muitos tempo, ainda nos anos sessenta e setenta do século passado, o conceito de revolução, pelo menos em certos países da Europa, parecia estar disponível como horizonte do desenvolvimento político das sociedades. O que acontece é que, nos dias de hoje, a revolução enquanto dispositivo político parece ter-se tornado obsoleto. Este é o grande triunfo do chamado neoliberalismo. 

No entanto, a obsolescência da revolução tem como contrapartida a reemergência das revoltas populares. O que se assiste aqui e ali, por exemplo em França, não é ao nascimento de nenhum processo que, por uma súbita transformação qualitativa, conduza a uma revolução tal como aconteceu em França, em 1789, ou como foi teorizada pelos marxismos. Assistimos a revoltas súbitas que explodem e logo desaparecem, revoltas que se desligam das motivações ideológicas para serem expressão de uma espécie de saudade de um mundo que acabou. Na verdade, vivemos o tempo das revoltas conservadoras. Não porque sejam reaccionários politicamente - embora possam sê-lo -, mas porque nascem do desejo de conservar um mundo e um modo de vida que acabou, porque se originam num imperativo de luta contra os decretos do tempo.