sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Velhos radicais


O dr. Mário Soares, devido às suas últimas intervenções, tem sido o bombo da festa de muitos sectores da direita, direita que, na verdade, muito lhe deve. Não há, por aqueles lados, quem não desanque em Soares. Indignam-se com o pedido de demissão do Presidente e do governo, bem como com as predições do antigo presidente sobre o advento de uma nova ditadura e a possível emergência, na sociedade, da violência social e política. Na verdade, há em Mário Soares um tom quase apocalíptico, um desespero pelo rumo de Portugal e do mundo. Será que o velho político perdeu o senso e vê coisas que mais ninguém vê? Ter-se-á Mário Soares, no final da sua vida, tornado um radical? Terá renegado a sua velha posição de político centrista?

Se o dr. Soares se converteu ao radicalismo, então encontrou um estranho companheiro de jornada. Também, pelos parâmetros da nossa direita, o Papa Francisco – aquele jesuíta conservador que era cardeal de Buenos Aires – se terá convertido ao radicalismo esquerdista. Foi agora publicada a exortação apostólica Evangelii Gaudium, que constitui uma espécie de programa do papado de Francisco. Sobre a situação política e económica mundial a posição do papa é, praticamente, igual à de Mário Soares. Quase que utiliza a mesma linguagem. Para dizer a verdade, as palavras do Papa, nos pontos 53 a 60 da Evangelii Gaudium, são ainda mais radicais do que as de Mário Soares. E como Mário Soares, Francisco fala de uma nova tirania e profetiza, ainda como Mário Soares, o surgimento da violência. A crítica do Papa Francisco ao capitalismo global é devastadora, mostrando como esse capitalismo, através da política, mata as pessoas, violando o mandamento divino Não matarás!

Na verdade, nem Mário Soares nem o Papa Francisco deixaram de ser o que sempre foram. Não são radicais esquerdistas, mas pessoas preocupados com o equilíbrio social e a harmonia entre as classes, isto é, velhos conservadores. Perceberam, como muitos outros conservadores e centristas, que o mundo – e Portugal com o mundo – caiu nas mãos de radicais, de pessoas que, através das elites políticas, estão a sugar literalmente os povos e atirá-los para a miséria. A ditadura de que fala Soares ou a tirania de que fala Francisco nem precisam de eliminar a liberdade política. Basta que políticos subservientes e venais tornem legal aquilo que é imoral. As pessoas não morrem de tiros. Morrem de fome, de falta de cuidados de saúde, de desespero. Soares só se enganou numa coisa, embora o Papa não. Nós não estamos à beira da ditadura. Ela já existe. É a tirania do dinheiro.