quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O anjo do passado

Carmen Parra - Agar e o anjo no poço (1997)

Vivemos numa sociedade em que o desprezo pelo conhecimento histórico se tornou numa verdadeira pandemia. Não se trata apenas de um desconhecimento popular do passado e dos feitos dos antigos. Até há relativamente pouco tempo, a história era o território onde os políticos aprendiam. Era uma espécie de laboratório, para onde se olhava e se descobria a prudência e a sensatez na acção. A história é o maior dissolvente conhecido das tentações utópicas, pois nela descobre-se a que lugares negros nos podem conduzir os desvarios da imaginação. Por outro lado, aquilo que parece ser coisa recente, a história mostra-o na profundidade do tempo. Veja-se o caso do conflito entre israelitas e árabes. Claro que a criação do Estado de Israel levou ao ódio e ao conflito entre as partes, mas esse ódio já lá estava desde o tempo de Abraão e da expulsão de Agar e de Ismael. Este velho exemplo mostra-nos que o passado não dorme, mesmo se está silencioso. É isso que as actuais elites políticas, alucinadas por uma economia matematizada e desistoricizada, desconhecem, na sua abrangente ignorância da história. Preparam assim o terreno para que o anjo do passado traga todos os pesadelos que teimamos em ignorar.