segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

O caso Mário Soares

Francisco de Goya - Velho baloiçando-se (1824-1828)

Os representantes da imprensa estrangeira em Portugal escolheram o dr. Mário Soares para figura do ano. Isto diz-nos muito do estado em que está o país e, fundamentalmente, o estado em que está a oposição. Mas deixemos de lado essas contas e voltemo-nos para a figura do premiado. O dr. Soares tem o condão de ser detestado à esquerda e de ser execrado à direita. A esquerda, nomeadamente aquela que se organiza em torno do Partido Comunista, não lhe perdoa a opção, em 1975, pela democracia burguesa. A direita, que muito lhe deve, não lhe perdoa a sua oposição ao antigo regime e, fundamentalmente, o seu ar de príncipe e a sua altivez. 

Se olharmos para o que é essencial no percurso de Mário Soares, se não ficarmos presos pelo seu comportamento táctico e nos detivermos naquilo que constituiu o seu horizonte político, descobrimos nele uma coerência que em nada se conforma com a visão que dele é passada pelos seus detractores, nomeadamente os que vêm da direita. O aparente anti-comunismo de 1975 ou o ainda mais aparente radicalismo "esquerdista" de 2013, não diferem, em objectivos, do horizonte que o conduziu a pedir auxílio, por duas vezes, ao FMI, enquanto primeiro-ministro, ou ao que inspirou os seus mandatos presidenciais. Em todos os seus gestos políticos se sublinhou sempre uma sociedade democrática - uma democracia burguesa, na linguagem dos anos setenta -, um certo equilíbrio de forças sociais, uma economia de mercado matizada pela força do estado, uma sociedade onde a igualdade de oportunidades fizesse sentido. Dito de outra maneira, Mário Soares foi sempre um social-democrata no efectivo sentido da palavra. Todo o seu trajecto político é coerente com este desígnio.

A oposição que tem feito ao actual governo vem muito claramente nessa linha. Soares não se tornou um comunista. Resiste à degradação do pacto social-democrata que animou a Europa e do qual ele foi um dos protagonistas essenciais em Portugal. A direita tentou tornar a sua oposição risível, ora lançando calúnias, ora falando com condescendência das suas tomadas de posição. Para azar dessa direita, as posições de Soares correspondiam, sem ainda se saber, às posições do actual Papa. O prémio da imprensa estrangeira agora concedido representa um segundo azar para essa direita pró-governamental (há outra), e veio mostrar duas coisas. Por um lado, Mário Soares ainda é uma figura internacional, apesar da idade. Provavelmente, é a figura política portuguesa ainda com maior peso internacional. Por outro, veio mostrar que o seu actual combate político, por muito que desagrade ao governo e às hostes que o apoiam, tem sentido e é muito mais do que uma tontice de um velho caduco.