sábado, 7 de dezembro de 2013

O inferno da abstracção

Frantisek Kupka - Abstracção (1931-35)

Esta historia protagonizada por um secretário de Estado, Bruno Maçães, revela, para além do enviesamento ideológico que é próprio do governo, uma outra coisa, aliás ligada, desde sempre, à ideologia. Trata-se de considerar a realidade social portuguesa de uma forma abstracta. Não se olha para as pessoas que somos, para a economia que temos - ou que não temos -, para as grandes clivagens sociais e como elas são um factor de atraso do país. Quando se elimina essa coisa obsoleta que são os homens concretos - neste caso, os portugueses reais - tudo se torna fácil e as mais infelizes utopias parecem realizáveis. Este pobre secretário de Estado, um rapaz até com alguns estudos, acha que Portugal não se deve entender com os outros países do sul da Europa para encontrar caminhos diferentes do actual, caminho este imposto pela Alemanha. No mundo das abstracções tudo é possível, inclusive imaginar que Portugal é a Alemanha e que, de um momento para o outro, seremos ainda mas eficientes que os alemães. Gente como esta, gente que vive presa em abstracções ideológicas, acredita mesmo que do actual processo de destruição da sociedade e de empobrecimento das pessoas nascerá uma sociedade liberal composta por agentes racionais que perseguem o seu bem através de contratos racionalmente estabelecidos. Não compreendem que a abstracção é o inferno e que é para lá que nos estão a encaminhar.