sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Política zen

A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.

Durante muito tempo, julguei que António José Seguro tinha o perfil de um antigo sacristão de uma paróquia de província. Precipitação minha. Seguro não é um mero ajudante de sacristia, mas um capo inovador. O secretário-geral do PS inaugurou, em Portugal, uma nova forma de fazer política. Podemos chamar-lhe política zen. Seguro não age e quase não fala. Espera, silencioso e em quieta contemplação, que o poder venha até ele. O PS de Seguro não se compromete com a direita, pelo menos sem eleições, e muito menos se compromete com a esquerda. Se o leitor, porém, pensa que Seguro é equidistante tanto das actuais malfeitorias da direita como das divagações utópicas da esquerda, então está equivocado. Equidistante significaria que Seguro ainda estaria num determinado lugar político. Não está.

Ao optar por uma política zen, Seguro entregou-se à meditação transcendental, exercício silencioso que o conduziu à levitação. Seguro levita, paira acima do espaço onde o jogo político se desenrola, enquanto os portugueses sofrem os resultados das políticas da troika de credores, dos seus agentes governativos nacionais e do efeito conjugado de dezenas de anos de irresponsabilidade – para ser simpático – da troika nacional, PS, PSD e CDS. Por vezes, António José Seguro articula uns sons. Prestamos atenção e parecem palavras. Não são. São balbucios inócuos, talvez a repetição de um mantra, que ele usa para acalmar a mente, combater as paixões e tranquilizar o coração.


É assim, com um ar seráfico e translúcido, que António José Seguro espera que o poder suba até ele. Enquanto paira nos ares olhando com fastio a realidade nacional, sonha com os milhões de votos que lhe hão-de dar a maioria absoluta. Para quê? Aqui nem o silêncio nem a placidez de Seguro conseguem ocultar o programa que germina nas suas meditações. Quando o actual governo se derrotar a si mesmo, António José Seguro deixará o transe e entrará em acção. Substituirá, decidido e sem piedade, o pessoal do PSD/CDS por gente do PS e, com um ar compungido, continuará, sem um arrepio na consciência, a obra de destruição em curso. A essência da política zen é o compromisso com o não compromisso, para mais livremente obedecer a quem efectivamente manda no mundo e na Europa. Imagina quem? Resta saber se os portugueses serão compreensivos com a subtileza estratégica da política zen e estarão dispostos, outra vez, a entregar novo cheque em branco a mais um desbiografado que, disfarçado de monge, sonha ser rei.