segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Trégua invernal

Manuel Narváez Patiño - Inverno (1993)

Há expressões que se utilizam sem se pensar no sentido profundo que nelas se oculta. A semântica das palavras e das frases não se divide apenas entre o denotativo e o conotativo, entre o sentido corrente e o sentido figurado. Há uma carga histórica que, a maioria das vezes, o utilizador da língua não tem em consideração. Essa historicidade tem o poder de fazer vacilar as fronteiras entre denotação e conotação, tem o poder de dar figura ao que é já sentido corrente. Tudo isto vem a propósito da "trégua invernal" aprovada pelo governo da Catalunha. Essa "trégua invernal" propõe que nos meses de Novembro a Março não seja cortada a luz, água e gás às famílias em pobreza económica, podendo elas regularizar a dívida entre Abril e Outubro.

Ora a pergunta que se coloca é se a expressão "trégua invernal"  é denotativa ou conotativa. Em aparência estaremos perante uma expressão metafórica, mas a historicidade que se esconde na expressão faz vacilar a fronteira entre a conotação e a denotação. O que significa isto? Significa que, para haver uma trégua no Inverno, é porque há uma guerra em curso. Por conveniência das partes, a guerra foi suspensa. A expressão "trégua invernal" deixa ver, como se fosse um negativo fotográfico,  a guerra que grassa pelos países em situação difícil e que ameaça alastrar a toda a Europa. Ela configura - dá figura - a essa guerra que, em Abril, voltará em todo o seu esplendor, e seguirá, por certo, com todo o vigor o seu cortejo de violências.