quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Um caminho insuspeitado

José Gutiérrez Solana - Cantina dos pobres (1932-33)

SZ - Acima de tudo, a reflexão sobre os bens comuns, que estava na origem do pensamento de Marx. Hoje, a fronteira é ainda maior: desemprego, protecção da natureza, desigualdades sociais, manipulações genéticas. Não é por acaso que o Papa Francisco aborda essas questões cada vez mais frequentemente. Você sabe a quais conclusões a CIA chegou quando começou a estudar seriamente a América Latina?

Não, me diga.

SZ - Esqueçam Marx, disseram. Quem vai dar voz aos pobres é a Igreja. (Da entrevista a Slavoj Zizek)

Este extracto da entrevista do filósofo esloveno Slavoj Zizek, um filósofo que se define ideologicamente como comunista, permite salientar dois acontecimentos que, apesar da sua aparente distância original, poderão continuar a aproximar-se num mundo como aquele em que vivemos. Em primeiro lugar, talvez seja precipitado pensar que a derrota dos países comunistas tenha sido o fim do comunismo enquanto ideia reguladora da acção política. É provável que a queda do muro de Berlim tenha sido, também, uma libertação do próprio comunismo de um modelo burocrático, inimigo da liberdade dos indivíduos e de efectiva natureza totalitária.

Em segundo lugar, as preocupações que o actual Papa Francisco manifesta relativamente à vida social, económica e política não são novidade na Igreja Católica. Estavam já presentes em papas anteriores, inclusive no conservador João Paulo II e, muito claramente, em Bento XVI. Com a Igreja Católica está a passar-se algo de muito semelhante com aquilo que se passa com a ideia comunista. Também a Igreja se está a libertar da relação com o poder económico e político, uma relação de muito séculos, iniciada no final do Império Romano, voltando-se para os pobres, mas de uma forma que ultrapassa em muito um assistencialismo caritativo legitimador de uma ordem social iníqua.

Em terceiro lugar, o ateísmo e a irreligiosidade não são sequer dados constitutivos do ideal comunista. Poder-se-á mesmo dizer que Marx herda o ateísmo do pensamento burguês iluminista e, fascinado pelo triunfo da ciência moderna, trata de tornar "científico" e de cariz irreligioso aquilo - a ideia comunista - que quase sempre foi sustentado por um sentimento religioso.

Estes movimentos parecem abrir um caminho insuspeitado ainda há uns anos atrás. Esse caminho será o da confluência entre uma esquerda que se emancipou da tutela do comunismo burocrático e totalitário, mas que não se rendeu ao dinheiro e ao liberalismo, e uma Igreja Católica que está a interiorizar quanto o liberalismo, nesta sua versão maximalista, lhe é radicalmente adverso. Isto não significa que se prepare ou se deseje, com a cumplicidade dos católicos, o advento de sociedades comunistas, mas antes que se pode ter a esperança de ver crescer um movimento de defesa das comunidades humanas, que estão a ser destruídas por uma economia que se libertou de qualquer tutela. Não se trata de restaurar, em novos moldes e com outros cúmplices, a utopia da sociedade perfeita e sem classes, mas de reconstruir comunidades onde, em liberdade, os laços humanos possam resistir à voracidade dos mercados e ao desígnio de tornar o homem numa mercadoria, ainda por cima obsoleta.