segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Um ministro levitante

Egon Schiele - Levitação (1915)

Parece que a prova de avaliação a que todos os professores contratados iriam ser submetidos só se aplica aos que têm menos de cinco anos de serviço. Este é mais um caso que manifesta o caos que se esconde na mente do actual incumbente do Ministério da Educação. Apesar de ter concordado com muito do que Nuno Crato escreveu e disse antes de ser ministro, mal foi conhecida a sua nomeação, e contrariamente a muitos professores, afirmei que iria ser uma das grandes desilusões do governo. Não me referia sequer à sua tendência para olhar para a realidade educacional através de pesados - e quase opacos - óculos ideológicos. Aquilo que me pareceu sempre muito problemático - como aconteceu já com muitos outros ministros da Educação - é o seu completo desconhecimento da realidade escolar, da relação de forças que existe dentro das escolas, da natureza das famílias, alunos e professores que ali se cruzam. Nuno Crato escrevia e dizia coisas acertadas, mas eram sempre coisa genéricas, coisas que, com algum bom senso, todos aceitamos. O seu mandato, para além da deriva liberal que visa destruir a escola pública, é marcado por decisões e contra-decisões, como parece ser o caso da célebre prova de avaliação, que mostram bem o quão ignorante o ministro é da realidade escolar. Como antes de ser ministro, também agora Nuno Crato levita sobre os universos concretos que são as escolas. Quando vier  o tempo da queda, quando a gravidade retomar os seus direitos sobre o corpo do ministro, o grande problema não será o seu trambolhão, mas os estragos, talvez irreparáveis nos próximos decénios, que os seus delírios levitantes terão feito no sistema educativo português.