domingo, 26 de janeiro de 2014

Cadernos do esquecimento - 1 Envelhecer

Recuperação de textos do meu antigo blogue averomundo, retirado de circulação. Este texto pertence a uma série denominada cadernos do esquecimento. Texto de 12.09.2009.

No outro dia acabei por fazer 53 anos. Em dias como esse, surge, sempre insidiosa, a pergunta sobre o que é envelhecer. Envelhecemos quando o discurso se torna metonímico. Indisciplinada, a mente pensa por contiguidade, a essência da metonímia, associa os assuntos, as ideias, os conceitos uns com os outros através dessa relação de lateralidade. Mas um exercício de censura, socialmente exigido, obriga a que o discurso se foque num objecto e persista nessa focalização. Envelhecer mata a censura e liberta a manifestação metonímica do discurso. Dissimuladamente, começa-se a falar com os outros, deixando as palavras deslizar de assunto para assunto, num encadeamento que ameaça ser infinito. Eis os primeiros sinais, o triunfo da contiguidade metonímica da fala sobre o encadeamento lógico da comunicação. Envelhecemos quando o discurso transita do elemento sólido para o elemento líquido. Liquefeita a fala, ficamos, paradoxalmente, presos nela. Envelhecer é ficar fechado na liquidez interminável do discurso. É assim que me vejo já.