sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Eusébio


Eusébio chegou a Lisboa tinha eu quatro anos, e era, imagine-se, um fervoroso adepto encarnado. Nascido no seio de uma família, pelo lado paterno, de benfiquistas, o Benfica está presente em mim quase desde os primeiros momentos de vida. Havia, por essa altura, nos finais de 1960, nomes que eu já conhecia. Águas, Costa Pereira, Coluna, Santana, Cavém. Foram os meus primeiros heróis. O gosto pelo futebol ampliou-se e consolidou-se talvez um pouco antes da entrada na escola primária, em Outubro de 1962. Como? Com as colecções de cromos da bola. Para quem gostasse de futebol – e naquele tempo a maioria dos rapazes gostava – coleccionar cromos de futebolistas era um dever, uma espécie de iniciação que permitia a entrada no universo dos rapazes.

Numa dessas colecções – uma em que os jogadores eram retratados a meio corpo com o emblema do clube por trás –, o Eusébio aparecia por três vezes. Como jogador do Benfica, da Selecção Nacional e da Selecção Militar. Estávamos em 62 ou 63 e isso diz tudo o que o Eusébio era naquela altura. Cresci a ouvir e a ler os feitos do Eusébio. Ouvir, mais do que a ver. Ver via-se na televisão, mas as transmissões de jogos eram raridades. Viam-se resumos, ao domingo à noite, e isso era um acontecimento. Ouvia, como Portugal inteiro ouvia, os relatos dos jogos e, cedo, comecei a ler os jornais desportivos. Para a maioria de nós dizer que vimos jogar o Eusébio significa apenas que vimos uns quantos jogos na televisão, muitos resumos e ouvimos relatos sem fim e lemos inumeráveis crónicas nos jornais. Um jogo de futebol em Lisboa era, naquele tempo, um bem escasso. Mas, claro, não havia semana que não víssemos, na imaginação que o relato e a crónica incendiavam, o Eusébio jogar. E víamos que era o melhor.

Para além do prazer das vitórias do Benfica e da Selecção, devo ao Eusébio e ao futebol daquela época outra coisa. Uma certa ideia de persistência e de continuidade no tempo. Entre os meus 4 e 18 anos, Eusébio foi a figura central do Benfica, uma presença contínua na minha imaginação. Não apenas ele, não apenas jogadores do Benfica. As equipas mantinham a mesma estrutura durante anos e anos, e aqueles jogadores, mesmo os adversários, tornavam-se familiares, gente com quem vivíamos e que, sem nunca os termos visto, os víamos todas as semanas, vestidos de vermelho, de verde, de azul... Tudo era, no futebol daquele tempo, mais lento e mais duradouro. Apenas Eusébio era demasiado rápido. Por isso, as bolas entravam na baliza e o seu nome no nosso coração. Perdi uma parte da minha infância.