quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Meditações dialécticas (24) - Da produção de monstros

Alexander Harrison - Solidão (1893)

Façamos com que o nosso contentamento dependa de nós, desprendamo-nos de todas as ligações que nos atam a outrem, ganhemos sobre nós o poder de viver sós e de viver assim à nossa vontade. (Montaigne, Essais I)

Há nesta pretensão de auto-suficiência, erigida como ideal regulador de vida por Michel de Montaigne, uma monstruosidade que desafia o pensamento. Essa monstruosidade tinha sido pensada previamente por Aristóteles, quando, na Política (1253a), define o homem como um animal político (ou animal social, noutras traduções), acrescentando que quem, por natureza, não tiver cidade, não viver com os outros, ou é um ser decaído ou sobre-humano. 

É certo que o homem auto-suficiente de Montaigne não é, por natureza, alguém destituído de sociabilidade, alguém monstruoso. A separação do outro e o corte com a comunidade são projectos que visam consolidar o poder sobre si e tornar o desejo de solidão em natureza solitária. A monstruosidade é o resultado de um projecto, o qual visa a transformação da natureza humana. 

Quando falamos na modernidade e olhamos para o seu desígnio racionalista, esquecemos a monstruosidade deste homem desenhado por Montaigne e que se constituiu num dos ideais do mundo moderno. Qualquer avaliação do projecto da modernidade deverá ter em conta todos os monstros que foram apresentados como ideais reguladores do ser humano. A monstruosidade não foi inventado com Frankenstein, de Mary Shelley.