terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Na luz da clareira

George Pierre Seurat - A clareira (1882)

Exausto, deixou-se cair. Perdido na floresta, vagueou entre sombras e ameaças de luz. Ouviu o crocitar dos corvos e sentiu o corpo dilacerado abrir-se para aquilo que o esperava. Caminhou dias e noites. Por vezes, anotava tonalidades e gravava na memória os sons que lhe chegavam. Quando descansava, entregava-se a manobras de classificação. Ruídos, cheiros, matizes, tudo lhe servia para criar classes e elaborar estranhas taxionomias. A floresta, porém, resistia e não se deixava prender em redes tão frágeis. À bruma da manhã seguia-se a da tarde e, depois, a da noite. Se o coração vacilava, a mente deixava-se arrastar pela névoa. Quando chegou à clareira, a súbita luz rasgou-lhe a carne e um incêndio consumiu-lhe o corpo. Ainda sussurrou: Quem disse que a luz dá vida?