quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

O poder da bandeira

Lajos Kassák - Porta-bandeiras (1919)

A bandeira, ou o seu culto, é um artefacto que espelha bem a natureza do homem. Por norma, os grandes fenómenos de massa - o desporto, a religião, a política, a guerra, pelo menos até certa altura - não passam sem o recurso às bandeiras. É fácil de perceber a razão. Elas são uma forma racional de identificação. Assinalam identidades, indicam pertenças, promovem exclusões. É um signo comunicacional de grande eficiência, e por isso, por essa eficiência, a bandeira inscreve-se no campo da racionalidade.

Aquilo que é misterioso, porém, é essa eficiência mesmo. Por que motivo uma bandeira desfraldada exerce sobre nós esse poder de identificação, nos indica uma não pertença, nos assinala uma proximidade ou uma ameaça? Uma resposta sensata seria dizer que é um hábito social, que fomos educados para reconhecer e ler esse signo. É verdade, mas isso não explica a razão por que ela se tornou signo e símbolo, por que motivo as bandeiras desencadeiam em nós processos afectivos, que depois racionalizamos como identidades. 

Certamente que a sua natureza esvoaçante tem nisso um papel fundamental. Uma bandeira é um dispositivo de fronteira. Ela está presa ao nosso mundo terrestre, mas eleva-se aos céus, ao além, planando sobre a nossa condição material. A bandeira é feita de matéria, mas já não é material. Está agarrada à terra, mas habita o alto. Ela, no seu esvoaçar e na sua sujeição ao vento, é vento e espírito que sopra onde quer. É esta equivocidade da bandeira que lhe dá o irracional poder de tocar o coração dos homens, incendiando ânimos, ateando a coragem, abrindo-o para o perigo. Por isso, ela espelha a nossa natureza. A racionalidade de que se reveste é apenas a cobertura de uma infinita não racionalidade.