quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Qualquer coisa saiu do lugar

Rothko - N.º 8 (1964)

Os tempos estão fora dos gonzos. Sorte é não ser Hamlet para os endireitar, mas que estão fora do lugar, lá isso estão. Não é só a questão das praxes e dos seus rituais absurdos, nem a da existência de verdadeiros gangs de jovens das classes altas que se batem quase até à morte. Não. Há mais qualquer coisa insidiosa que anda misturada com o ar que respiramos. Um clima de intolerância aliado a um desejo de humilhar os fracos parece estar a descer sobre a sociedade. O pior de tudo, porém, está em que aquilo que era evidente até há pouco - refiro-me a uma certa decência nas relações entre pessoas - está a tornar-se, a cada dia que passa, mais opaco. Esta opacidade crescente tem o poder de escancarar as portas por onde o mal entra. Por vezes, há a sensação de que a própria noção de direitos - nem me refiro já aos constitucionais, mas aos básicos, aos direitos do homem - está a tornar-se decididamente obsoleta. Qualquer coisa saiu do lugar.