domingo, 19 de janeiro de 2014

Um sopro de vento

Felix Vallotton - A bola (1899)

Uma nódoa negra de lama e gravilha na parede junto do interruptor fez-me lembrar um dia de Primavera em Praga*. Li as palavras de Nabokov e fiquei longo tempo em silêncio. Também um dia, ao sentir correr o vento de certa maneira, acordou-se em mim a pátria distante que é a infância. Ela vinha naquele vento e trazia-me o que perdera, a bola, o burro de cartão, as palavras que o pai dizia aos domingos de manhã, os homens a passar de bicicleta, as azedas a crepitar na boca. Uma nódoa, um sopro de vento, um quase nada. De súbito, paro de pensar. A vida depende sempre de tão pouco que depressa se esquece.

* Vladimir Nabokov, Desespero.