sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Um processo de destruição

 
A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.

Portugal, com a crise da dívida soberana e a actual governação, entrou, com o atraso que é habitual num país periférico, na era thatcheriana da política. Até aqui, tinha convivido com a vitória do neoliberalismo, mas tentava preservar algumas das conquistas sociais e civilizacionais que tinham chegado ao país muito tarde, depois do 25 de Abril e da adesão à CEE. Conquistas essas que a senhora Thatcher tinha mandado, pura e simplesmente, para o caixote do lixo. Para nós percebermos as consequências daquilo onde estamos metidos vale a pena citar uma frase célebre da ex-primeira-ministra britânica publicada em 1993: Não existe essa coisa da sociedade, o que há e sempre haverá são indivíduos.

Esta frase, que se tornou o lema dos poderes políticos que governam para os mercados, tem consequências terríveis. A principal é a duma ideologia que nega a existência do bem comum. Se não há sociedade, não há, como costuma dizer um amigo meu, nenhum bem comum que se sobreponha aos interesses particulares. Por isso, tudo pode e deve ser privatizado, desde a saúde à água, desde as infra-estruturas da electricidade às escolas. É isto que estamos a descobrir em Portugal. A segunda consequência prende-se com as antigas redes de solidariedade que suportavam a comunidade e a defesa do bem comum. Como o bem comum não existe, então não faz sentido a existência dessas redes de solidariedade, que vão dos sindicatos às estruturas governativas de protecção social. Desde há muitos anos que assistimos ao sistemático e paulatino desmantelamento dessas redes. Só os indivíduos existem, só os seus interesses particulares e egoístas contam.


É evidente que esta ideologia extremista fundada num individualismo radical não se impõe de um dia para o outro. Precisa de lutar e destruir as velhas tradições da humanidade. O homem sempre foi compreendido como um animal que vive em sociedade. A perspectiva neoliberal da senhora Thatcher – agora tornada dogma da direita portuguesa – entra em contradição com os hábitos da humanidade e a forma como os homens têm afirmado a sua vida. Nunca a não ser nos nossos dias alguém se teria lembrado de fazer política como se a sociedade não existisse. O que vamos assistir em Portugal é a um acelerar do processo de destruição dos laços sociais, das redes comunitárias, da sociedade, numa palavra. Em nome de quê e para quê? Em nome do indivíduo e dos seus interesses particulares e egoístas. Para que alguns indivíduos, socialmente fortes e bem colocados, possam fazer dos outros indivíduos, mais frágeis, isolados e sem defesas sociais, o pasto para as suas actividades de rapina.