sábado, 15 de fevereiro de 2014

Uma mancha obscura

Marlene Dumas - Night Time (1993)

São negros os tempos. Esta sensação parece ter-se pegado aos dias e não os larga, contaminando tudo, alastrando no centro da vida, instalando-se nos sítios mais inimagináveis. Não se trata da crise. É muito mais do que isso. A distribuição da riqueza, ou a sua ausência, é apenas a consequência dessa mancha obscura que cresce no horizonte. Que palavra utilizar para caracterizar o que se passa? Colapso? Falência? Qualquer coisa colapsou dentro das pessoas, abriu brechas e deixou que o pior começasse a vir ao de cima. Sim, o pior está a emergir e vai continuar. A muralha abriu rombos e os diques cederam. O mal encontra cada vez menos obstáculos. Tomou conta dos governos e tornou-se legislador. A lei já não serve para conter o mal, mas para o ampliar, para o tornar obrigatório, para banalizar aquilo que antes seria motivo de escândalo. O mal é agora a linguagem comum, domina as conversas, apropria-se das expectativas, desdobra-se através do zelo dos apóstolos. Uma mancha obscura alastra sob a cumplicidade estridente do silêncio.