segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Uma questão de amor

François Maréchal - Corrupção (1977)

Parece que, segundo Bruxelas, Portugal não possui uma estratégia de combate à corrupção (ver Público). Por outro lado, se tivermos em consideração os dados do Eurobarómetro, Portugal tem uma estranha percepção do fenómeno. Para 90% dos portugueses a corrupção é generalizada (a média europeia é de 76%). Esta percepção, porém, não é corroborada pela experiência. Apenas 1% dos portugueses afirmam que lhes foi solicitado um suborno (a média europeia é de 4%). Se a experiência da solicitação do suborno é tão diminuta, por que razão haverá a ideia duma pandemia no tecido social?

Esta visão talvez nasça de uma crescente consciência de que os negócios públicos e os cargos do serviço público se devem pautar por regras universais e imparciais. A percepção que se tem, porém, é que as regras, tendo a aparência de serem universais, são construídas de forma parcial. Esta parcialidade visa proteger os membros da família e excluir os que são estranhos. Por família entende-se a família propriamente dita, mas também algo mais amplo. Desde a preferência por amigos e conhecidos até por gente da família partidária, passando pelas famílias dos pequenos e grandes interesses, tudo isto cabe na ideia de família. Pensa-se estar perante um nepotismo generalizado, onde se institui um amplo sistema de protecção familiar.

A posição dos portugueses não deixa, todavia, de ser ambígua. Se denunciam o clima generalizado de corrupção, gostam também de se sentir parte de uma família. Quem não quer ter uma família protectora? Se há uma corrupção generalizada em Portugal, como parece haver, o problema não é apenas da classe política. É um problema de cultura que, na prática, despreza as regras racionais, universais e imparciais de gestão dos bens públicos, e pratica aquilo que se poderá chamar uma gestão afectiva desses mesmos bens. São distribuídos conforme os afectos. Isto é, são distribuídos segundo o gosto de quem os distribuiu e esse gosto está ligado ao facto de distribuidor e receptor serem afectos um ao outro. Podemos então dizer que a corrupção em Portugal não é apenas uma questão de família, é também, e essencialmente, uma questão de amor.