sexta-feira, 28 de março de 2014

A herança

A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.

Um dos aspectos mais doentios dos defensores das políticas governamentais prende-se com o problema da terrível herança do despesismo. A partir do púlpito governativo, das cátedras televisivas ou das tribunas da blogosfera, um conjunto de sacerdotes da ausência de despesa pública arengam contra as velhas gerações gastadoras. Fazem-no, sem pudor, em nome das novas gerações que irão ficar a braços com uma terrível dívida. Esta retórica pantanosa pretende misturar, como se fossem a mesma coisa, o conjunto de investimentos em importantes infra-estruturas materiais e imateriais com os gastos resultantes da corrupção ou dos delírios eleitorais das várias irmandades que têm estado no poder em Portugal.

É preciso sublinhar – pois são muitos os distraídos – que as gerações mais velhas, as tais que são agora acusadas de despesismo e de deixarem uma dívida para as outras gerações pagarem, quando morrerem não irão levar para a cova as auto-estradas, os hospitais e centros de saúde, as bibliotecas, os centros desportivos. Também não levarão as universidades, os politécnicos, as escolas, nem os laboratórios ou os centros de investigação. E mesmo que gostem muito de futebol, deixarão cá os malfadados estádios do Euro de 2004. Essas gerações, quando morrerem, também não levarão as licenciaturas, mestrados e doutoramentos que ajudaram a pagar aos filhos e aos netos. Se estivermos bem atentos, a terrível e negra herança da dívida tem um lado solar e luminoso. Tornou, apesar de tudo o que a crise trouxe de mau, a vida das novas gerações melhor e Portugal num país menos risível. Este discurso geracional é absurdo e injusto. Ninguém das gerações agora acusadas levantou a voz contra a dívida contraída na Monarquia e que só acabou de ser paga em 2002.

Mas não houve má despesa pública? Houve. Houve decisões erradas e dinheiro que se perdeu nos corredores da corrupção. Mas esta campanha contra a despesa pública, uma campanha que confunde investimento no país e nas pessoas com falcatruas e delírios eleitorais, tem um duplo objectivo. Em primeiro lugar, justificar a destruição das estruturas do Estado que visam fomentar a igualdade de oportunidades (a Educação, a Saúde e a Segurança Social). Em segundo lugar, e esse é o seu desiderato final, transferir grandes somas das instituições públicas para as mãos de privados, mercantilizando o acesso à saúde, à educação e, se for possível e rentável, à própria segurança social. O que esta gente pretende, em nome das novas gerações, é destruir qualquer possibilidade dessas gerações terem uma vida digna.