domingo, 16 de março de 2014

As relações amorosas

Karl Schmidt-Rottluff - Kiss and Love (1918)

No espaço de tempo que me foi dado viver encontram-se, facilmente, três grandes paradigmas - digamos assim, utilizando a despropósito um termo que fez fortuna na escrita do epistemólogo Thomas S. Kuhn - das relações amorosas. Em cada época, há desvios ao padrão dominante, mas este é uma espécie de orientação que permite, apesar das excepções, ter uma compreensão global do que se passa. Cada um dos paradigmas exprime o Zeitgeist (espírito do tempo) e a forma como nele as relações amorosas se realizam.

O primeiro paradigma é o jurídico. As relações amorosas são vistas como um contrato que se celebra para a vida toda. A força da lei dá coesão às relações amorosas e estas são pensadas no âmbito do jogo respeito e/ou infracção da lei. Este era o padrão dominante na geração dos meus pais e nas que me antecederam. A relação amorosa estava ferreamente submetida à ordem jurídica do mundo, à dura lex, que lhe dava solidez e duração.

A minha geração, mas mais claramente as que se lhe seguiram, pertence já a um outro paradigma. O respeito pela lei é substituído pela experimentação. O modelo já não é o direito mas a ciência. As relações amorosas tomam uma natureza experimental. Se funcionarem são confirmadas, pelo menos até que os amantes descubram que são falsas. Falsificadas, deixam de fazer sentido e o território fica aberto a nova experimentação. Foi como se o quarto de casal se tornasse num laboratório íntimo e a vida amorosa fosse um imenso ensaio.

Nos últimos tempos, porém, o paradigma científico das relações amorosas tem vindo a ser substituído por outro paradigma que poderá ser catalogado como económico. A economia, no tempo do capitalismo financeiro, é o grande padrão do relacionamento amoroso. As pessoas estão no mercado sujeitas à lei da oferta e da procura. A relação amorosa não tem, todavia, a solidez do paradigma jurídico, nem o experimentalismo do paradigma científico. O que a marca é o consumo. As pessoas usam-se e deitam-se fora. Neste acto de consumo, inscreve-se a descartabilidade do outro, mas qualquer um é, neste tempo de consumo e mercados agressivos, outro. Logo, descartável. O mercado é imenso e não tem fins-de-semana, feriados ou férias.