domingo, 2 de março de 2014

Carnaval, Carnaval


Um texto novo a intercalar nos textos dos Cadernos do esquecimento provenientes do meu antigo blogue averomundo.

Apetece-me escrever não fora a Quaresma, o Carnaval seria insuportável. Mas quem me iria entender? Sabe-se lá o que é a Quaresma. Fiquemos, então, pelo Carnaval, e imaginemos que não escrevi o que escrevi. Odeio o Carnaval? Não, não. Não se trata disso. Trata-se antes do desconsolo que cai sobre o mundo nestes dias. Deixe-se de lado o Carnaval brasileiro e a sua estranha combinação entre o delírio báquico e a racionalidade mercantil. Esqueçamos algumas festividades europeias, mais refinadas e ousadas, mas onde a tradição e o turismo se casam, segundo a lei do interesse. Olhemos para os Carnavais das nossas paróquias, apadrinhados por municípios ociosos, ou para os tristes mascarados que, por desespero, andam por aí perdidos. E eu sinto pena de tudo isso, pois tudo isso me dói, ao dar-me a ver que, não sendo eu o mascarado ou o figurante, sou eu que por ali vou, nesta triste figura de ser português como se fosse um sem-abrigo, um indigente que, ao causar repulsa, desencadeia a boa consciência e o grito abafado da piedade.