sexta-feira, 7 de março de 2014

Grandes narrativas


Nos finais do século passado discutiu-se com afinco o fim das grandes narrativas, uma ideia do filósofo francês Jean-François Lyotard. As grandes narrativas seriam formas de interpretação da realidade que davam ao homem uma compreensão global do mundo e da vida. O iluminismo, o marxismo, o idealismo, mas também o cristianismo, eram grandes narrativas que tinham perdido a capacidade de fornecer uma compreensão da realidade e de orientar um programa de acção política e social. A crença mais generalizada era a de que o tempo das grandes explicações do real tinha passado.

Ao mesmo tempo que essas narrativas tradicionais perdiam de facto apelo, outras ocupavam o palco da história. Do ponto de vista religioso, por exemplo, o Islão ganhou visibilidade enquanto grande narrativa orientadora da acção política. No pólo ocidental, o liberalismo tornou-se ele mesmo a única grande explicação da realidade social e a singular orientação dos governos. Sem se perceber isto, é impossível perceber o que se passou e passa nas ditas primaveras árabes, o que se passa na Europa do Sul, na Síria, na Venezuela e, agora, na Ucrânia.

O que está sempre em jogo é a abertura dos mercados e a conformação da realidade política a uma forma de governo que tenha como objectivo central o fomento do lucro privado. Quando as coisas não correm bem mas os governos simpatizam com a ideia, temos as intervenções do FMI, com ou sem troika. Quando os governos resistem ao apelo liberal, começam as manobras de levantamento popular até que os governos caiam. Caso seja necessário, recorre-se à intervenção armada, como no Iraque. Perceber o que se está a passar na Ucrânia implica ter em conta a estratégia das potências liberais e a grande narrativa do liberalismo.

Talvez os EUA e a UE se tenham, no entanto, equivocado num ponto. Pensaram que a Rússia, agora que se tinha despedido do marxismo, estava condenada a converter-se, também ela, ao liberalismo e que a penetração do Ocidente na Ucrânia, e depois na Rússia, eram favas contadas. Daí a extraordinária exclamação de Obama: a Rússia está do lado errado da história. O que o Ocidente não quer compreender é que existem outras grandes narrativas para além da sua. Também os russos têm a sua grande explicação sobre o seu papel no mundo, e demonstraram nestes dias que não estão dispostos a abdicar dela. Veremos se, em pleno século XXI, o sangue correrá na Europa em nome do conflito entre a grande narrativa liberal do Ocidente e a grande narrativa imperial russa. Os homens adoram matar-se em nome de grandes ideias, mesmo que estas apenas escondam os interesses mais mesquinhos.