quinta-feira, 6 de março de 2014

Leituras poéticas - Luís Filipe Castro Mendes - "A Misericórdia dos Mercados"

El Greco - La expulsión de los mercaderes del templo (1570-71)

Nós vivemos da misericórdia dos mercados.
Não fazemos falta.
O capital regula-se a si mesmo e as leis
são meras consequências lógicas dessa regulação,
tão sublime que alguns vêem nela o dedo de Deus.
Enganam-se.
Os mercados são simultaneamente o criador e a própria criação.
Nós é que não fazemos falta.
                                                       (Luís Filipe Castro Mendes, A Misericórdia dos Mercados, Assírio & Alvim, 2014, p. 81)

Quando decidi escrever sobre um dos poemas do último livro de Luís Filipe Castro Mendes hesitei entre o escolhido, em epígrafe, e o poema da página dez que tem por título Para quê poetas em tempo de indigência?, numa referência directa a Hölderlin. Vivemos num tempo em que a questão colocada pelo poeta alemão se tornou obsessiva. Recorde-se, por exemplo, a Terceira Miséria, de Hélia Correia. O poema escolhido, que dá título ao livro, pode não ser a resposta à questão de Hölderlin, mas contribui para perceber por que razão o nosso tempo é de indigência.

Uma leitura apressada pode ficar presa - por encanto ou por horror - ao carácter de intervenção política e social do poema. Haverá quem nele veja quase um panfleto. No entanto, o poema dá-nos a ver, já não na perspectiva clássica, as razões dessa indigência que cai sobre nós e toma conta da vida dos homens. Também a poesia e os poetas devem falar sobre a vida tal como ela nos acontece. No centro do poema está um conflito entre poeticidades  e é nesse conflito que descobrimos a indigência dos nossos dias.

A poética triunfante expressa-se nos versos O capital regula-se a si mesmo e as leis / são meras consequências lógicas dessa regulação, e, mais à frente, Os mercados são simultaneamente o criador e a própria criação. Assim, Capital e mercados são metáforas de um dispositivo que se tornou estranho aos homens, de um dispositivo auto-regulador, auto-legislador e auto-criador. Esse dispositivo tem uma clara natureza poética, pois a sua característica essencial é a de ser criador, e criador da criatura que ele próprio é. Estamos perante uma autopoeticidade que se cria continuamente e que nesse criar-se ilimitado deixa perceber a sua monstruosidade.

Essa monstruosidade não está apenas na auto-criação ilimitada. Ela está também na exclusão que fomenta. De um ponto de vista poético, a auto-poiesis dos mercados exclui duas poeticidades que até aos tempos modernos tinham convivido uma com a outra, a poeticidade do homem e a poeticidade de Deus. O que Luís Filipe de Castro Mendes torna evidente é a pura destruição dessas poeticidades. O homem, em dois versos, é dito não fazer falta e o próprio Deus vê ser-lhe negado o poder criador dessa nova e tão fantástica criatura. Eis a indigência da nossa época. Vivemos nos tempos em que Deus deixou de ser compreendido como criador e que o homem se tornou dispensável, perante o poder sem fim do novo criador. A indigência reside na dispensabilidade dos homens e de Deus.

Onde essa indigência se sublinha de forma absolutamente lapidar é no primeiro verso Nós vivemos da misericórdia dos mercados. A misericórdia divina - o supremo atributo de Deus na economia da tradição monoteísta - foi transferida para os mercados. Isto é uma outra forma de proclamar a morte de Deus. Ao mesmo tempo, o homem descobre-se - e essa é uma das nossas experiências vitais - dependente da compaixão ou da ira dos mercados, os quais não hesitam em sublinhar a inutilidade dos homens. Chegados aqui podemos refazer a pergunta de Hölderlin: Para quê poetas num tempo em que a única poética válida é a dos mercados?