terça-feira, 11 de março de 2014

Olhamos e não vemos

Benjamín Palencia - Estación de Atocha, Ferrocarril M.Z.A (1926)

Os atentados na estação de Atocha fazem hoje dez anos. O olhar distanciado tem a virtude de trazer à luz aquilo que são as ilusões da hora. Em 2004, vivia-se uma estranha sensação de confronto entre o mundo ocidental e o mundo islâmico. Os gravíssimos atentados em Espanha foram apenas um dos momentos desse confronto, o qual parecia ter um espaço aberto para se desenvolver. Olhar para tudo isso dez anos depois explica-nos porque é impossível fazer história sobre o presente ou o passado recente. Nestes dez anos muitas coisas se sucederam. A crise económica de 2008, depois a crise das dívidas soberanas, os resgates da Europa do Sul, as primaveras árabes, a guerra na Síria e agora mesmo o confronto entre o Ocidente e a Rússia, em torno do problema da Ucrânia e da Crimeia. O foco da nossa atenção - uma atenção sempre guiada e manipulada pelos meios de comunicação social - vai girando, conforme as luzes vão brilhando. Essa fixação na luz, nos fenómenos que concentram as atenções, parece ter o condão de nos cegar, de não nos deixar perceber o peso efectivo de cada acontecimento. Perante isto, podemos chegar a duas posições bem diversas. Por um lado, podemos pensar que a velha distinção entre aparência e realidade continua a fazer sentido. Nós, nos acontecimentos, apenas vemos a aparência, mas escapa-nos a realidade, a qual será, se o for, perceptível num futuro mais ou menos longínquo. Por outro, seremos inclinados a pensar que os acontecimentos são mais ou menos caóticos, episódios que, com a sua racionalidade interna, se manifestam mas que não constituem nenhuma cadeia causal com um sentido oculto que a história revelaria. Seja como for, uma coisa parece certa, a nossa cegueira perante o presente. Olhamos, olhamos e não vemos.