terça-feira, 18 de março de 2014

Tragédia ou farsa?

KIRILL KUDRYAVTSEV - AFP - Putin na Praça Vermelha (Público)

Olho a fotografia de Kirll Kudryavtsev e sou tomado por uma mão-cheia de lugares-comuns. A incomum situação da Crimeia parece que serve para isso mesmo, para sublinhar os lugares-comuns a que a imaginação se vê compelida. A coreografia que a foto revela reenvia-nos, de imediato, para uma imagem tipo Hollywood. Eis um lugar comum inusitado. A elite russa, na Praça Vermelha, comporta-se à maneira americana. Se estavam à espera dum desfile modelo 1.º de Maio, com tanques, tropas e bandeiras vermelhas, enganaram-se. Temos o doce coração da Rússia como pano de fundo cinematográfico da tomada, por via referendária, da Crimeia.

Eliminada a exaltação soviética pela performance hollywoodesca, que outro lugar-comum salta aos nossos olhos? O nacionalismo russo expresso nessa letal ligação entre o coração - o amor - e a pátria - a bandeira. Nos tempos pós-nacionalistas e de morte do Estado-Nação, segundo a retórica liberal europeia, eis que o nacionalismo entra em força Europa adentro. Também os conflitos em torno do amor pátrio são um lugar-comum europeu. Estava recalcado, mas parece ter ainda potência suficiente para elevar a voz e lançar a Europa em plena irrisão. É preciso não esquecer que o nacionalismo europeu tem a seu crédito múltiplas guerras, entre elas duas guerras mundiais. E aqui entra um outro e surpreendente lugar-comum. Hegel terá dito que a história repete-se sempre, pelo menos duas vezes. Ao que Karl Marx acrescentou: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa. Resta-nos saber se a encenação que vemos se reporta a uma tragédia grega ou a uma farsa pós-moderna?