terça-feira, 8 de abril de 2014

A ordem moral do mundo

Ritual de desinfestação de prisioneiros recém chegados ao campo de concentração

Tudo isto me indigna. Embora já saiba que está dentro da ordem moral das coisas que os privilegiados oprimam os não-privilegiados: é por esta lei humana que se rege a estrutura social dos campos. (Primo Levi, Se Isto É Um Homem)

O escritor Primo Levi foi um dos judeus que conseguiu sobreviver aos campos de concentração nazis. No entanto, talvez devido à sua formação científica, sempre manteve um olhar lúcido sobre aquilo que viveu e que narra no livro acima citado. O que o excerto em epígrafe revela é, tendencialmente, inaceitável para a consciência comum, mais do que os comentários sobre a banalidade do mal de Hannah Arendt. Inclinamo-nos para considerar os campos de concentração, com a sua estrutura social,  onde os próprios companheiros de cativeiro se oprimem entre si, como uma ruptura com a ordem moral da humanidade, como a emergência, motivada pelo fenómeno nacional-socialista, de algo não-humano no seio de um mundo onde a sensatez e o equilíbrio deveriam reinar. A relação de opressão entre privilegiados e não-privilegiados, porém, não é uma invenção dos campos de concentração. Essa é a ordem moral corrente no mundo dos homens, que os homens acabam por aceitar como natural. No campo de concentração, podemos dizer que essa ordem moral se concentra. Devido a essa concentração, ela  torna-se mais forte e poderosa, intensifica-se até ao horror. Mas ali ainda é a humanidade - uma humanidade entregue a si própria, ao desespero e ao delírio - que fala. Seria bom não confundir as coisas e, fundamentalmente, não esquecer que os campos de concentração não foram invenção de extra-terrestres, mas de homens. Homens, muitas vezes, cultos e civilizados, amantes da ordem moral do mundo.