quinta-feira, 3 de abril de 2014

A vítima excepcional

Jack Levine - O Prisioneiro

Continuo a leitura do romance Tudo Passa, de Vassili Grossman. De súbito, alguma coisa sobre a realidade portuguesa se ilumina ao ler uma reflexão sobre os campos de concentração soviéticos. Ivan Grigórievitch, personagem central, foi um dos inúmero presos políticos da era Estaline. Não fizera nada, mas uma simples denúncia, sem qualquer fundamento, leva-o a trinta anos de campo de concentração. Libertado com a morte de Estaline, reflecte sobre todo o mecanismo posto em marcha pela perseguição política. Descobre que a generalidade dos prisioneiros inocentes tem uma dupla perspectiva sobre o que aconteceu. Cada um sente-se uma excepção. Ele estava inocente, a sua prisão mais do que injusta foi um engano, um equívoco do partido. O sentir-se excepcional por parte da vítima das perseguições de Estaline acabava por ser um processo de legitimação das perseguições e de defesa da sua justeza. A vítima era uma excepção, todos os outros - e aqui vem a segunda perspectiva - que foram presos nas mesmas circunstâncias eram culpados. O partido poderia cometer pequenos enganos - como no seu caso - mas nunca enganos em massa. O sentir-se excepção é o mecanismo pelo qual a subjectividade se submete e torna racional decisões fundadas na irracionalidade e arbítrio do poder político.

Quando nos interrogamos sobre a razão do comportamento benevolente e cordato dos portugueses, uma atitude de aceitação e de acordo tácito com as mais arbitrárias injustiças que lhes são infligidas pelo governo e pela troika, teremos alguma coisa a aprender com o sentimento dos prisioneiros dos campos de concentração soviéticos. Como eles, cada português sente-se vítima de terrível injustiça. O professor que perdeu o lugar na escola, o operário que viu o salário descer, o quadro médio ou superior que foi despedido, o funcionário que foi colocado na mobilidade, o aposentado cuja reforma foi amplamente cortada, cada um, olhando o seu caso, acha que foi vítima de uma injustiça. Mas também pensa, ao mesmo tempo, que ele - ou no melhor dos casos o seu grupo - é uma excepção, pois sempre foi um trabalhador empenhado e zeloso. A política global está correcta, julga, pois os outros viveram acima das suas possibilidades, são preguiçosos, pouco activos, gente sem virtude que apenas quer gozar e viver à tripa-forra. 

Este mecanismo de subjectivação tem por função desculpar a vítima da sua submissão ao algoz e transferir para as outras vítimas a culpa pela situação que vive. Se os outros não tivessem vivido como viveram, agora eu viveria melhor, pensa a vítima excepcional. O poder está desculpado e legitimado, pois não queria fazer mal ao inocente, mas tinha de pôr ordem nisto. Está legitimado porque não pode, na sua acção, ter em conta a excepção. Assim, pagam todos, os pecadores e o justo. Como todos se acham vítimas não das forças hostis do poder dominante mas da manha dos outros, dos verdadeiros culpados, o resultado é o amplo consenso com que as políticas actuais são acolhidas por uma grande camada da população vítima delas.