segunda-feira, 21 de abril de 2014

Benfica, as razões do coração

François II Quesnel - Blaise Pascal

O coração tem razões que a própria razão desconhece. (Blaise Pascal)

A vitória do Benfica no campeonato nacional gerou ontem enormes festejos um pouco por todo o país. Seria assim, embora com menos adesão, se o campeão fosse o Sporting ou o Porto. Para algumas pessoas, este comportamento é incompreensível e vêem nele um grau supremo de alienação perante a realidade, uma manobra dos poderes ocultos que manipulam as mentes, para que estas não estejam despertas para a realidade social, económica e política. Sei que sou suspeito, pois sou benfiquista (embora não tenha participado em nenhum festejo, nem tenha ido para a rua fazer barulho e erguer bandeiras e cachecóis), mas defendo que neste tipo de festividades desportivas não há qualquer alienação. A generalidade das pessoas sabe muito bem que a vitória do seu clube não altera a realidade social, não lhes dá emprego - se o não tiverem -, nem altera a configuração política do país. 

Não é isso que elas esperam quando comemoram uma vitória. Querem expressar uma alegria que lhes vem do coração, o que é absolutamente racional. O que não é racional - pelo menos em aparência - é o facto de uns gostarem do Benfica, outros do Sporting e por aí fora. Mas o homem não é apenas razão. Se o fosse, seria um monstro. Ele é também corpo, sentimento, emoção. O homem é, inclusive, desrazão. A pertença a um clube e o festejo dionisíaco das vitórias respondem a essa dimensão do homem. São a expressão da não razão (ou de uma razão que se nos esconde no coração) que todos transportamos. 

Do ponto de vista social, contudo, estas explosões de amor clubista, como a que se viu ontem, têm uma função de racionalização da vida. Elas enquadram e dão vazão a forças obscuras que todos nós transportamos, forças essas que nos aproximam da violência e da insociabilidade. Nas sociedades modernas, o desporto acaba por ter essa função de transformar pulsões não razoáveis e próximas da violência em pura festa. O que se viu ontem foi esse processo alquímico de transformação do chumbo em ouro, da violência emocional em festa pacífica. Trata-se de um processo catártico, cujas funções sociais não são diferentes daquelas que Aristóteles atribuía à tragédia clássica. Hoje a vida voltou ao que era, os que comemoraram ontem não ficaram mais ricos, nem os que perderam ficaram mais pobres. Em todos eles, porém, se reforçou a esperança de que, para o ano, terão oportunidade de festejar. A festividade dos vencedores é a porta por onde entra a esperança dos que ganharam e dos que perderam, a esperança de que a vida, apesar de tudo o que os interesses fazem dela, prossiga triunfante. São estas as razões do coração que a razão desconhece, mas que a vida mobiliza para afirmar que vale a pena ser vivida. São assim os símbolos e o futebol não passa disso mesmo, de um símbolo.