sábado, 26 de abril de 2014

Cavaco, uma dificuldade estrutural

Julio Gómez Biedma - Conflicto de intereses

Por norma, os políticos têm tendência para reduzir o discurso a um conjunto insípido de lugares comuns. Cavaco Silva, porém, é magistral no cultivo da banalidade. Esse não é, porém, o mal maior presente nas arengas do actual Presidente da República. Transparece sempre nas suas palavras uma relação muito difícil com a democracia. Mais uma vez, no discurso do 25 de Abril, perorou contra a crispação e o conflito na vida política. 

Uma democracia viva precisa de crispação e de conflito político. Sem eles, a democracia não é necessária. Se todos estamos de acordo, se não há entre nós conflitos, então não vale a pena a existência de vários partidos políticos nem de uma democracia. Cavaco Silva sempre achou que o melhor era pensar que havia um interesse único e que as divergências e conflitos políticos seriam devidos ou a uma errónea interpretação da realidade ou, no pior dos casos, à má vontade dos agentes políticos. 

A democracia é o regime que reconhece a existência de diferentes interesses, reconhece e valoriza o conflito, desde que seja jogado dentro de regras previamente definidas. Tirando o governo no seu habitual choque com as regras constitucionais, não vislumbro quem, conflituando com as políticas governamentais, não aceite as regras da nossa democracia. O Presidente da República acha que o essencial na democracia é acessório ou mesmo prejudicial. A perspectiva do Presidente não é apenas uma falsificação da realidade. É um sintoma da sua dificuldade estrutural em lidar com a vida democrática.