quarta-feira, 16 de abril de 2014

Da igualdade e da diferença

Vivian Maier - Chicago, IL (1950s)

Olhamos a fotografia de Vivian Maier e percebemos, de súbito, por que razão os americanos, ao contrário dos europeus, formam uma sociedade tão avessa a doutrinas igualitárias. Na Europa, a antiga diferenciação de castas inscreveu nos indivíduos um sentimento radical de desigualdade, sentimento que, a dada altura, se tornou um escândalo e acabou por gerar uma consciência culpada. Isso não significou que os europeus se tivessem tornado iguais, mas a ideia de igualdade dos diferentes, depois da Revolução Francesa, nunca perdeu a sua aura e um certo fulgor na Europa Ocidental. Marx chamou-lhe mesmo um espectro.

Os americanos não suportam a igualdade porque, na verdade, são todos iguais. A igualdade para eles não é uma ideia da razão, nem um ideal a atingir num progresso moral infinito ou através da revolução política. Ela é o ponto de partida, esse lar que todos querem deixar para trás. Deixar a igualdade - essa igualdade estrutural que a foto tão bem retrata - significa procurar desesperadamente a diferença. Só os iguais se preocupam em diferenciar-se, só aqueles que se sentem mergulhados no mar da igualdade procuram a ilha da diferença. Que o projecto de diferenciação dos americanos resida na acumulação de bens materiais, mesmo que disfarçados de bens espirituais, é sintoma seguro desse sentimento obsidiante de igualdade. Poderia haver caminho mais fácil para fugir à igualdade do que o mero acumular de bens materiais?